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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Velhice não é doença

Atividades fazem do idoso um ser experiente, saudável e produtivo

Em setembro do ano passado, fui convidado a proferir palestra sobre o idoso em uma Universidade de João Pessoa, na Paraíba, onde resido há dez anos.

O convite nasceu porque me consideram um idoso que chegou em bom estado de conservação até os 72 anos, que, a meu ver, já não uma idade tão avançada é para os nossos dias.

Como tenho atividade intensa, especialmente ligada à área mental e intelectual, acreditaram que eu teria o que dizer. Sou alguém que está em termos de esclerose absolutamente dentro dos padrões aceitáveis para a faixa etária. Um velho em relativo bom estado, diríamos!

Antes de falar, ouvi palestras de diversos professores, especialistas, geriatras e percebi que todos tinham como preocupação dar ao velho todas as condições para que tenha boa saúde e atendimento de acordo com as suas necessidades e limitações.

Os programas incluem as atividades dos grupos de terceira idade, exercícios nas academias, as hidroginásticas, o acompanhamento nutricional, as caminhadas, as danças, as viagens e tudo o que dá ao velho prazer e bem estar.

O velho realmente precisa do amparo da família, do carinho dos filhos, da atenção quando das enfermidades. E quem souber que um velho é maltratado, deve denunciar.

Como não sou da área das ciências humanas, das que lidam com a alma, não me interessei por esse tipo de enfoque, embora necessário e justo. Mas ficou de lado, no meu conceito, um aspecto importantíssimo: o intelectual.

Depois de viver certo número de anos, o velho acumula experiências que lhe permitem continuar se aprimorando e até mesmo transferir o seu conhecimento para os mais moços. Entre as tarefas do velho, portanto, deveriam estar incluídas as atividades mentais intensas, para que ele continuasse útil e produtivo. A inteligência e a memória, especialmente, precisam de muito exercício e treinamento. Os grandes comandantes das nações são idosos, não imprestáveis.

Dei o meu depoimento quando falei da minha origem miserável de menino de pé descalço na periferia de São Paulo, em ruas enlameadas, luz de lampião a querosene, água de poço tirada manualmente com sarilho e corda, condução pouca e distante, num tempo de escassez de escolas públicas quando havia meia dúzia de faculdades. Fui filho de pedreiro e lavadeira, semi-analfabetos.

Vivi num tempo de segunda grande guerra, já que nasci em 1934, quando tudo era penúria. Ficava-se entre cinco e seis horas na fila do pão para comprar 250 gramas por pessoa dia sim dia não. Açougue só abria às terças, quintas e sábados e quase sempre sem ter o que vender. Frango só para os ricos, na macarronada do domingo. Faltava açúcar, sabão, o que mais se pensasse. Leite, manteiga, frutas, não chegavam às mesas dos pobres. O fogão era de lenha, o barraco era de chão de tijolo, as paredes sem reboque e o telhado sem forro.

O rádio era de bateria de carro e tocava por três horas. Depois tinha que recarregar. O toca disco era de corda e cada agulha tocava dois ou três discos de acetato. Uma música de cada lado, em setenta e oito rotações. Vendiam as agulhas em caixas de 100.

Nosso primeiro fogão a gás chegou depois de uma fila de espera de quase oito meses. O primeiro telefone foi instalado dezenove anos depois de pedido. A casa que o pai fez em fins de semana levou dez anos para ficar meio pronta. Sem falar da anterior que ele construiu durante mais de seis meses e que um raio derrubou na hora em que chegávamos com a mudança.

Nos restaurantes, o azeite estrangeiro era pesado antes de ir para a mesa e o cliente pagava pelo que consumisse. A Antártica, além da gasosa (soda limonada), água tônica e guaraná, faturava muito com as barras de gelo de cinco a seis metros que distribuía pelas ruas. Geladeira elétrica só havia algumas importadas.

Minha preocupação, porém, nunca foi analisar as dificuldades, mas seguir em frente e trabalhar. Sempre fui fanático pelo trabalho, sem a preocupação de acumular riqueza, aflito com o futuro ou com a velhice. Mesmo porque quem vive pensando na velhice esquece de viver a juventude. E pode ser que a velhice nem chegue. Meu pai, por exemplo, morreu com cinqüenta e quatro anos, depois de ser operado de uma úlcera que ele amargou por dezesseis anos.

Formei-me em contabilidade e acabei sendo sócio de uma empresa onde eu trabalhava depois que o patrão teve sérias enfermidades do coração e dividiu a empresa em duas. No ramo químico ligado à área de metalurgia. Ele ainda está vivo e forte e tem noventa e três anos. Lúcido e produtivo.

O menino da periferia era agora industrial. Deixei essa empresa pela dificuldade de convivência com os outros dois sócios e montei minha fábrica própria em Diadema, São Paulo. Tempos difíceis. 1964, início da ditadura militar. Tempo em que o nosso Lula era presidente do sindicato e insuflava as greves nas fábricas do ABCD.

Conheci o mundo em diferentes viagens aos vários continentes, algo jamais sonhado por quem é filho de operário neste país de tantas desigualdades sociais. E mesmo entre os da classe média, só possível para uns poucos privilegiados.

Vendi a indústria em 1986 e depois de ter algumas outras atividades mudei-me para João Pessoa, onde edito um jornal literário que é bem aceito a ponto de a Assembléia Legislativa da Paraíba conferir-lhe dois votos de aplausos, por diferentes deputados, e depois me outorgar o título de Cidadão Paraibano e a Medalha Augusto dos Anjos, comenda aos que se destacam na área de cultura. Tenho também cadeira na Academia de Letras e Artes do Nordeste, Núcleo Paraíba.

Todo este relato para mostrar que o velho, além de um amontoado de doenças que a natureza traz, implacavelmente pela degeneração das células, é uma inteligência que não precisa necessariamente deteriorar junto com a fraqueza dos órgãos. Vejam Stephen Hawking, o físico inglês que só tem movimentos do pescoço para cima. É uma das mais brilhantes inteligências do planeta, apesar de suas limitações físicas. Que nos sirva de exemplo.

Cada velho tem o direito de viver como uma individualidade plena. Será bom se puder ter o carinho dos filhos e a atenção dos amigos, bem como a assistência médica e a boa alimentação. Mas caso algo lhe falte, que ele se baste por si mesmo. Preencha o vazio da solidão com a utilidade do serviço. Aprimore-se o quanto possa e oferecendo aos outros o conjunto de suas experiências.

O velho hoje está valorizado, em função da crise social que provoca o desemprego. Cinqüenta e quatro por cento dos lares brasileiros têm na aposentadoria do velho o sustento da família. Por isso os bancos vivem assediando-os para oferecer empréstimos. Se antes o desejo era que o velho morresse logo para não dar despesas, hoje fazem orações para que ele viva muito. Caso ele morra, enterra com ele o sustento da casa.

Ninguém afirme que não vale a pena lutar e progredir porque já está no fim da vida. Esse tempo, fim da vida, não existe porque a vida não tem fim. O que termina é apenas a reencarnação, mas a vida do espírito continua e tudo o que ele acumular lhe pertence e levará para a espiritualidade e também para as novas encarnações, quando deverá viver mais algumas experiências.

Não trate a velhice como se fora uma doença crônica e irreversível. Mais que isso, ela é o acúmulo da sabedoria. É o grande e verdadeiro troféu que o ser humano conquista na sua passagem pelo planeta. Valorize-se, meu velho, e mantenha a força da sua juventude.

Neste ano que começa, faça planos como todo mundo. Melhore sua cultura e ensine o que sabe. Seja útil. Ajude Deus a construir um mundo melhor.


Revista Internacional de Espiritismo – Janeiro 2007
Octávio Caúmo Serrano

1 comentário:

Consultora em Educação disse...

Como conviver com o idoso

Ivone Boechat (autora)

1- Nunca pergunte a um idoso: qual é o segredo de viver tanto assim? Porque a pessoa não vai lhe convencer ou vai dizer que não sabe a resposta. Quem vai adivinhar como se vive anos e anos, com tanta virose, corrupção, mentira, tapeação, bala perdida, exploração... ruindade!
2- Nunca telefone ou visite um idoso entre 12:00h e 16:00h. TODO idoso gosta de descansar nesse período sagrado.
3- Jamais conte um problema ao idoso. Ele vai poder ajudar? Também não seja o problema do idoso: é covardia. Ele não vai ter como se defender.
4- Nunca interfira na decisão do idoso: se ele decidiu ser enterrado ou cremado. Não fique reclamando do preço da cremação, do túmulo..Nem fique agourando e perguntando o que a família deve escrever por cima do túmulo.
5- Nunca diga ao idoso: essa história você já me contou dez vezes. Diga a ele que a história é interessante e o ajude a resumi-la. Ele vai entender que a história é conhecida!
6- Não estimule o idoso a se lembrar de um fato que lhe cause sofrimento. Desvie sempre a tristeza para o lado bom de tudo.
7- Não explore a disponibilidade do idoso, lembre-se que ele já trabalhou muito e hoje não tem mais resistência, saúde e vigor para tomar conta de problemas e cachorros... dos outros. Deixe em paz o cartão bancário com o pagamento da minguadíssima aposentadoria. Vai à luta!
8- Mude o canal da TV quando o assunto é desgraça!
9- Ao visitar o idoso, leve algo que lhe faça bem à saúde: boa conversa, estímulos, boas notícias... palavras cruzadas, linha para crochê... uma fruta que ele possa consumir... um livro. Nas festas de aniversário e Natal, seja criativo! Chega de tanto pijama e chinelo.
10- Lembre-se: a pessoa idosa tem todo direito à felicidade e não vai ser você que vai atormentar os derradeiros dias da vida de ninguém. Exercite a gratidão, o perdão, a solidariedade e chega de despejar lixos de traumas, tristezas antigas e carências na caçamba que a vida cismou de colocar na porta de quem lutou tanto para resistir às intempéries.

A Natureza é assim... Deus nos ensina se soubermos estar atentos...

A Natureza é assim... Deus nos ensina se soubermos estar atentos...
"Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro mandamento; Instruí-vos, eis o segundo."

Vale a pena

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Se o amor se vai

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