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segunda-feira, 8 de março de 2010

A caridade em mudança

Ivan René Franzolim

Novas formas de fazer caridade com competência e bons resultados

Nós, espíritas, navegamos na mesma corrente de pensamento que acredita no conhecimento espírita e em sua força para transformar o homem. Muitas vezes ficamos ansiosos devido à lentidão com que ocorrem os bons acontecimentos ou temerosos pela rapidez com que se propagam os ruins. É natural.

A transmissão do conhecimento espírita e até as suas práticas precisam adequar-se à sociedade contemporânea. Sem essa adequação, nossa comunicação estará contaminada com obstáculos que afastam o entendimento e o interesse das pessoas. Isto é um fato. E, com a comunicação abalada, os resultados de nossas ações deixarão a desejar. O difícil é identificar o que se deve ajustar sem comprometer a integridade do conhecimento espírita.

Novidades são interessantes e podem gerar transformação salutar em nosso entendimento e no modo de fazer as coisas. Muitas delas, porém, são vazias, não têm consistência e perdem harmonia se analisadas mais profunda e imparcialmente. Ah! Como é difícil ser imparcial! Em sua totalidade não o conseguiremos, mas devemos fazer um esforço consciente para poder aproveitar o que é bom.

A forma de se exercer a caridade é algo que pode melhorar bastante. Muitos espíritas ainda pensam que devem fazer tudo escondido. Assim, deixam pela manhã no orfanato, 20 quilos de açúcar e 10 quilos de farinha de trigo. Certamente essa pessoa está com a consciência tranqüila, contente até porque fez uma boa ação. O orfanato, no entanto, estava precisando de sal, óleo e margarina e tinha tanto açúcar e farinha, que eles se estragaram, criando bicho. Podemos até pensar que o problema é do orfanato que não ofereceu esses alimentos em excesso para outra instituição. Um pouco cômodo da nossa parte. Toda a responsabilidade para os outros e nenhuma para nós. Ora, a caridade pressupõe o uso inteligente dos recursos para atender a todos com eficácia, sem desperdício, inclusive do tempo dos voluntários, que quantas vezes é desperdiçado sem saber exatamente que tarefas são mais prioritárias. Podem passar um dia inteiro em uma instituição sem ter feito quase nada produtivo e com qualidade. Esta última, coitada, é sempre deixada de lado, pois o voluntário está doando e ele e a instituição julgam que, nesse caso, nada se pode exigir (A cavalo dado não se olham os dentes).

É, muita coisa precisa mudar e está mudando para melhor. Também pela influência do País mais capitalista do mundo. Que paradoxo! O coração do mundo, pátria do evangelho, aprende com os norte-americanos. Certo, no princípio é apenas mais um modismo. Agora ficou chique ser voluntário. Nas rodas sociais acabam tendo destaque positivo quem faz algum trabalho voluntário. Para conseguir um emprego, muitas vezes é fator decisivo.

É o começo. Não podemos esperar que todos iniciem novo trabalho com claro entendimento dos problemas sociais, da responsabilidade da própria sociedade do ponto de vista econômico, social, moral e espiritual. Isto nós alcançamos gradativamente e o espiritismo também tem muito a contribuir, mas não só ele.

Passamos da fase de fazer qualquer bem. Devemos fazer o bem no nível em que estamos capacitados a fazê-lo, sem desprezar qualquer oportunidade. É preciso ter comprometimento, técnicas, métodos, estratégias, metas, indicadores, avaliações e redefinições. Sobretudo, é necessário obter os melhores resultados.

No tempo de Kardec, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas incentivava apenas a caridade individual que deveria ser feita de forma mais velada possível. Apenas quando o espiritismo penetrou no Brasil é que a forma de fazer a caridade encontrou a sinergia do trabalho em grupo que oferece mais recursos e gera mais estímulos para a motivação das pessoas em favor do próximo.

O foco excessivamente religioso tende a abafar o raciocínio e a análise, gerando paradigmas intransponíveis. Quantas vezes escutamos líderes espíritas dizendo que o "importante é fazer o bem". Com isso se quer justificar que fazer o bem está na frente de qualquer outra coisa, como o estudo da doutrina, por exemplo. Que o bem deve ser feito de qualquer jeito, pois o que vale é a intenção. Pior ainda, são esses líderes equivocados que não aceitam introduzir na instituição espírita nenhuma técnica de administração, planejamento, marketing, qualidade pois entendem que elas podem deturpar o espiritismo. Sofisma. Todas as técnicas, métodos e doutrinas podem ser mal empregadas. Até na Bíblia encontramos passagens que mostram um Deus sanguinário, vingativo que só pode ser agradado com obediência cega, sacrifícios de animais, sangue e até oferecimento de bebidas alcoólicas.

Vamos, então, continuar a usar o conhecimento espírita como fundamento de nossas ações, mas sem desprezar tantos outros conhecimentos e experiências que podem contribuir com os nossos propósitos de progredir e fazer progredir com o mínimo de sofrimento e máxima participação na construção de uma vida melhor para todos.

Texto extraído da Revista Literária Candeia, ano VII, n°25, ago./out. de 2002, p.36-37.
O autor é Jornalista e Escritor Espírita.

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